16/01/2009

A crise e as novas mídias

Edição 1337 do Meio & Mensagem

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A crise chegou. Não é uma marola como disseram, nem sei se chega a ser um tsunami como muitos alardeiam. Neste, que será meu último artigo do ano, quero comentar o papel das novas mídias neste cenário de crise. Começando pelo jornalismo online, vemos uma profusão de vozes que nos faz ter uma noção bem mais ampla e irrestrita do que causou a crise e seus efeitos. Blogueiros, sites de notícias totalmente independentes, comunidades virtuais e seus desdobramentos concretos nos dão outros pontos de vista além dos grandes grupos de mídia globais. Estamos vivendo uma total relativização do conceito de notícia e de informação.

A crise financeira aparece concomitantemente com a crise da audiência em muitos veículos tradicionais mundo afora. Creio que uma não tem necessariamente a ver com a outra, pois aqui o que está pesando mais é exatamente a oferta que as novas mídias oferecem de conteúdos mais direcionados a nichos, como também os novos formatos, com narrativas breves e, portanto, mais adequadas à percepção do sujeito contemporâneo.

É hora dos pequenos criadores e produtores começarem a aparecer com mais freqüência com boas idéias e baixos orçamentos. Não que os pequenos, por serem pequenos, devam ser privilegiados e enaltecidos a qualquer custo, pois eles também fazem coisas ruins.

Devemos olhar a crise via escassez de verbas publicitárias e entender o novo desenho do mercado midiático e, dessa forma, particular as novas possibilidades de negócios. As empresas de telefonia móvel, por exemplo, estão se tornando empresas de mídia e trazem para seus quadros profissionais dos veículos tradicionais, com sua bagagem e visão. Entretanto, será preciso surgir um novo profissional, que entenda cada vez mais como se definem os gostos de uma geração que consome de maneira muito mais personalizada e caótica.

A publicidade tem tentado se ajustar a esses novos desafios, muitas vezes com sucesso e outras de maneira equivocada, quando tentam simplesmente adaptar formatos dos meios tradicionais aos novos meios.

As eleições norte-americanas, com a mobilização online em escala planetária e produção de conteúdo de toda ordem, oferece-nos uma dimensão do poder da colaboração e elaboração massiva e o quão longe isso pode chegar. Citei aqui que a operadora Tre, da Itália, com sua operação de DVB-H (TV digital no celular) está fazendo história, pois, além do incremento significativo do consumo médio, é a primeira vez que um serviço non-voice consegue fazer clientes mudarem de operadora, e estamos falando de uma operação que se iniciou em 2006.

Recentemente, a operadora Oi promoveu um pitching e recebeu mais de 150 projetos de produtoras de todos os tamanhos. A proposta da Oi é oferecer conteúdo multiplataforma, o que é absolutamente pertinente ao gosto e expectativa do público-alvo de 18 a 24 anos.

Dessas iniciativas surgem os novos paradigmas, e os novos empreendedores despontam. É comum dizer que, em tempos de crise, as oportunidades surgem e que há troca de papéis; entretanto, é preciso estar preparado para aproveitar esses momentos.

O ano de 2008 foi fundamental para entendermos um pouco dos desafios que virão. A oferta em novos veículos vem crescendo; assistimos ao “desmonte” da indústria fonográfica, com iniciativas de bandas importantes distribuindo seu trabalho diretamente pela internet; artistas despontam no MySpace e transformam-se em celebridades quase instantâneas; enfim, o futuro está aí. Enquanto escrevo estes artigos, nos quais muitas vezes falo de coisas que ainda vão acontecer, fico sempre com a estranha sensação de que, quando forem publicados e entregues aos assinantes de Meio & Mensagem, já estarão obsoletos e até sem sentido...

Muita gente já me perguntou se não tenho medo de empreender neste cenário apocalíptico, e eu sempre respondo: “O ‘não’ eu já tenho; portanto, estou em busca o ‘sim’”.

Não empreender é o “não” que eu digo que já tenho. Acreditar que podemos fazer algo que seja realmente novo e importante é o “sim” que procuro todos os dias. Estar à frente de um negócio pioneiro, não só no Brasil, mas no mundo, é um peso que sinto e que me estimula a continuar trabalhando. O Brasil não costuma ser muito generoso com os empreendedores, pois temos muitos impostos, muita burocracia e muita regulamentação. Entretanto, essas dificuldades forjaram empresários de primeira linha que são reconhecidos mundialmente por seu arrojo, criatividade e perseverança. Este foi um ano decisivo para todos os mercados, e certamente será lembrado como difícil, mas temos muitas lições aprendidas, e acredito que sem revolução não há evolução, mesmo que essa máxima esteja em consonância com a dialética marxista, e aqui falemos de capitalismo e da livre iniciativa privada.

Tenho recebido perguntas a respeito do lançamento da nossa TV no celular e fico muito satisfeito com o interesse e curiosidade das pessoas em entender o que estamos fazendo. Por enquanto, estamos ajustando os vários acordos necessários para que possamos falar mais do assunto. Não queremos falar aqui do quanto é complexo colocar de pé uma operação como está, mas fiquem certos de que é extremamente complexa. Por mais que tentemos simplificar as coisas, há um tempo de maturação e de articulação.

Parabenizo a todos que continuam investindo em seus negócios, aos publicitários e agências que continuam ajudando seus clientes e a todos que continuam trabalhando e acreditando nesse novo mundo que está surgindo e pode ser melhor.


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Alberto Blanco

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